Publicado em: 04/ set/ 2019

Futuro e influência nas mãos dos Brics

*Por João Mendes de Jesus

Os cinco grandes emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul -, considerados países que lutam pela afirmação de uma associação de países importantes, mas que ainda não atuam em frentes internacionais como um bloco econômico e comercial oficial perante os fóruns internacionais, na verdade se tornaram softs powers, que significa, em português, de acordo com as teorias das relações internacionais, a descrição da habilidade de um corpo político (o Estado, por exemplo), que passa a ter hegemonia sobre outros Estados, cujos países sofrem influência comportamental, cultural, ideológica e econômico-financeira, sem, no entanto, os países influenciados serem dominados militarmente, mas, sobretudo, por valores e ideias de um país ou um grupo de países, que se sobrepõem à maioria das nações.

Por sua vez, soft power significa poder brando, suave ou de convencimento, e tal termo foi usado pela primeira vez, no fim dos anos 1980, pelo professor de Harvard, Joseph Nye. A verdade é que os países membros dos Brics tem muitas diferenças, principalmente a Índia e a China, sendo que os indianos tem boas relações com os EUA, apesar das desconfianças históricas por parte dos primeiros, bem como a China, maior competidora em âmbito mundial em relação aos norte-americanos, sempre desejou ter sua moeda, o yuan, como moeda forte no âmbito dos Brics, sendo que a sede do banco dos Brics fica na China e seu presidente é indiano.

A Rússia, potência nuclear cujo arsenal é temido pelas potências ocidentais, assim como a China e a Índia igualmente possuem armas nucleares, tem interesses nos Brics, no sentido de fazer contraponto aos EUA, apesar de suas diferenças, principalmente com a China. Ao meu entender, pelo fato dos Brics não serem um bloco oficial e sim se apresentar como uma associação de países emergentes, que desejam ter força de barganha perante as potências ocidentais, que controlam instituições hegemônicas, a exemplo do FMI, Bird e ONU, com apenas cinco países no Conselho de Segurança, que determinam quais resoluções serão aprovadas ou não.

O Brasil, que atualmente está mais enfraquecido no que tange seu poder de influência perante os fóruns internacionais, sempre viu o Brics como uma oportunidade de formalizar novos negócios, a fim de se tornar um player internacional e, com efeito, conquistar novos mercados, sem, no entanto, alinhar-se automaticamente aos interesses dos Estados Unidos, de forma que sua política externa até meados de 2016, quando o governo Temer passou a se descolar dos Brics e até mesmo de blocos importantes como o Mercosul e Unasul, realidade esta que se concretizou com mais força e ênfase no governo Bolsonaro.

A verdade é que o Brics, por causa das diferenças e interesses de seus cinco membros, nunca teve a condição necessária de fazer frente ao império norte-americano pelo simples ao mesmo tempo que complexo fato de os Brics não serem um bloco econômico oficial, mas um grupo de países que se uniram para fazer política em âmbito mundial e negociar com enorme poder de barganha, pois a união de países emergentes que possuem, nada mais e nada menos, do que 26,46% da área total da Terra, reúnem 42,58% da população mundial e respondem por 22,53% do PIB do planeta. Realmente, são números astronômicos.

No ano de 2009, os Brics se reuniram pela primeira vez, pois como é de conhecimento mundial, são países com grande capacidade de investimentos e que se tornariam em potências, de acordo com economistas e administradores de relevância mundial, em potências mundiais até o ano de 2050, se continuarem na mesma toada em busca de independência, autonomia e soberania. O que falta para os Brics se tornarem um bloco oficial, a respeitar-se as diferenças entre os países, mas com interesses que se coadunam? Tornar-se um bloco econômico, conforme ressaltado, e formar um mercado comum, que priorize, sobretudo, as questões alfandegárias e acordos comerciais, além de fortalecer o Banco Brics, que faria um contraponto ao FMI, controlado pelos EUA, e ao Banco Mundial, sob o controle da Inglaterra.

Os BRICS, apesar de representarem mais da metade do número de pessoas vítimas de fome e a miséria, desde 2009 o conjunto desses países apresentaram aumentos em IDH, PIB e renda per capita. Nos últimos anos, a incluir os anos anteriores a 2009 deste século, os Brics foram responsáveis por cerca de 55% do crescimento econômico mundial, enquanto os países desenvolvidos contribuíram apenas com 20%. A partir de 2010, iniciou-se a desaceleração do crescimento dos cinco países, com destaque para o Brasil, que recrudesceu seus baixos índices de crescimento, sendo que a partir de 2015 a queda nos índices da economia brasileira se evidenciou com mais força, assim como os investimentos estrangeiros foram reduzidos, porque se direcionaram aos países considerados desenvolvidos, além de que países como o México, a Coreia do Sul e tigres asiáticos passaram novamente a receber a atenção dos investidores.

Contudo, os Brics continuarão a exercer seu papel e a se fortalecer, apesar do protecionismo da maioria de seus governos, no que é relativo aos seus mercados internos. Sabe-se, por exemplo, que o capital estrangeiro procura países não protecionistas, baixos salários e leis trabalhistas menos severas, de forma que possam investir e garantir sua parte, além de estabelecer novas cargas de horários de trabalho, sempre a visar o desenvolvimento da produção. Somado a isto, reconhece-se que no âmbito dos Brics, apesar dos interesses e diferenças entre os países, os Brics continuam a gerar crescimento, mesmo menor que dos anos anteriores, a combater a inflação e melhorar as condições de vida de seus povos. Os Brics são uma realidade e certamente continuarão a exercer suas forças econômicas e políticas no mundo.

*João Mendes de Jesus é economista e Secretário da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Município do Rio de Janeiro.