Publicado em: 09/ jul/ 2026

Autismo e frio

Como a hipersensibilidade e a textura das roupas desafiam a rotina de famílias no inverno.

Diferenças na interocepção fazem com que indivíduos no espectro sintam o clima de forma única.

Secretaria Especial de Inclusão (Sinc-Rio) orienta sobre os cuidados com a saúde e a escolha de agasalhos.

Com a chegada dos dias mais frios, a Sinc-Rio faz um alerta importante para a população: a percepção do clima e das baixas temperaturas ocorre de maneira única em pessoas autistas. Devido as diferenças no processamento sensorial e na interocepção — que é a capacidade neurológica de sentir e interpretar os sinais do próprio corpo —, a mudança de estação exige um olhar atento e humanizado de familiares, cuidadores e educadores para garantir o bem-estar e a saúde dos indivíduos neurodivergentes.

Os Perfis Sensoriais e a Temperatura

Compreender a relação entre o autismo e o frio envolve reconhecer que a resposta do sistema nervoso varia drasticamente de pessoa para pessoa. Especialistas dividem essas reações em dois perfis principais: a hipossensibilidade e a hipersensibilidade.

No caso da hipossensibilidade, a pessoa autista pode simplesmente não registrar que a temperatura caiu. Como o organismo não emite o aviso interno de que é hora de se agasalhar, há um risco real de hipotermia ou doenças respiratórias, se não houver a intervenção e o auxílio de terceiros.

Por sua vez, a hipersensibilidade faz com que o vento e o frio sejam sentidos de forma extremamente dolorosa, intensa e desconfortável, muito além do que a maioria das pessoas experimenta. Além disso, momentos de sobrecarga sensorial ou crises podem desregular o sistema nervoso, provocando arrepios e sensação térmica de frio intenso, mesmo que a temperatura corporal central continue normal.

O Desafio Texturizado das Roupas de Inverno

Outro ponto crítico identificado pelas famílias é a aversão às roupas de frio. Muitas vezes, a recusa em vestir um casaco não está ligada à temperatura em si, mas a um severo incômodo tátil. Tecidos ásperos, lãs, costuras grossas, etiquetas ou o próprio peso de blusas pesadas podem gerar irritação extrema e gatilhos para crises.

O secretário especial de Inclusão, João Mendes de Jesus, reforça a importância de a rede de apoio compreender que esses comportamentos não são “birra”, mas sim respostas neurológicas legítimas.

“Garantir a inclusão e a dignidade das pessoas neurodivergentes é também entender como elas vivenciam o mundo, inclusive as mudanças climáticas. O frio não afeta a todos de forma igual. Quando uma criança ou adulto autista recusa um casaco ou chora com o vento, o poder público e as famílias precisam estar alinhados para oferecer acolhimento e adaptações adequadas. Nossa missão na Secretaria é disseminar essa informação para que nenhum direito à saúde e ao bem-estar seja negligenciado” — afirma João Mendes.

Serviço — Guia Prático de Adaptação

A Secretaria Especial de Inclusão preparou uma lista de recomendações práticas para ajudar as famílias a lidarem com a sensibilidade térmica neste período.

Para quem tem Hipossensibilidade (não sente o frio)

Estabeleça uma rotina visual. Use cartões com figuras mostrando o clima do dia e a roupa correspondente. Verifique a temperatura da pele da pessoa (mãos, pés e pescoço) ao longo do dia para garantir que ela esteja devidamente aquecida.

Para quem tem Aversão às Roupas

Dê preferência a tecidos de toque macio, como algodão 100%, fleece ou moletom flanelado por dentro. Remova todas as etiquetas antes do uso. Experimente a técnica de “camadas”, utilizando uma segunda pele confortável e justa ao corpo antes do casaco pesado, para evitar o atrito direto com costuras.

Atendimento Especializado

Caso a família perceba prejuízos acentuados na rotina devido a essas alterações, a orientação é buscar o suporte de um Terapeuta Ocupacional com especialização em Integração Sensorial.